Um dos principais entraves globais ao avanço da energia eólica offshore — a escassez de profissionais qualificados — começa a ser enfrentado no Brasil a partir do Rio Grande do Norte. A Faculdade de Energias Renováveis e Tecnologias Industriais (Faeti), do Senai-RN, iniciou na última sexta-feira (23) as aulas da primeira pós-graduação do País voltada exclusivamente à energia eólica offshore, em um momento de aceleração dos projetos e do debate regulatório no setor.
A turma inaugural reúne 43 alunos, com perfis que vão de engenheiros eletricistas e mecânicos a técnicos e executivos de empresas ligadas à cadeia de energia, logística e infraestrutura. A proposta é formar profissionais capazes de atuar desde a fase de estudos e licenciamento até a construção, operação e manutenção de parques eólicos instalados no mar.
Entre os estudantes está Wellington Guanabara, diretor-executivo da Intersal, empresa responsável pelo Terminal Salineiro de Areia Branca (Porto-Ilha), que também serve como base para pesquisas do Senai-RN em energias renováveis e abriga o primeiro projeto brasileiro de eólica offshore a obter licença prévia. Ele afirma que sua busca pela pós-graduação se deu pela necessidade de compreender de forma aprofundada o funcionamento da energia eólica offshore, especialmente por estar diretamente envolvido com um projeto considerado inovador.
A expectativa de transição do onshore para o offshore também motiva profissionais com longa experiência no setor. Técnico em metalurgia com especialização em energia eólica pelo próprio Senai-RN, Emilson de Souza atua há 12 anos na operação e manutenção de parques em terra. Segundo ele, a projeção do setor no Brasil é promissora, e a pós-graduação amplia sua capacitação, abrindo um novo leque de oportunidades profissionais.
O curso teve continuidade no sábado (24) com aulas ministradas por Matheus Noronha, head de Energia Eólica Offshore da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), e Roberta Cox, diretora de Políticas para o Brasil do Global Wind Energy Council (GWEC). No primeiro dos 15 módulos previstos, os especialistas apresentaram um panorama global do setor, além de conceitos fundamentais e tendências tecnológicas.
Para Matheus Noronha, a iniciativa do Senai-RN atua como um catalisador para o desenvolvimento da indústria no País. Ele afirma que já foram identificados desafios importantes na cadeia de valor, especialmente na preparação de pessoas, e que, após a regulamentação e criação de mecanismos de apoio, será fundamental contar com profissionais qualificados. Nesse contexto, segundo ele, o Senai-RN dá a largada para formar quem vai sustentar essa indústria no futuro.
Na mesma linha, Roberta Cox destacou o caráter pioneiro do projeto, afirmando que o Senai está mais uma vez inovando e se antecipando às necessidades do setor. Ela ressaltou que a formação de pessoas é essencial e que, com o avanço da eólica offshore no Brasil, muitos empregos serão gerados nos próximos anos.
Ao dar as boas-vindas aos alunos, o diretor regional do Senai-RN, Rodrigo Mello, ressaltou o vínculo da Faeti com o Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), considerado o principal centro da América Latina na área. Ele afirmou que a formação foi cuidadosamente desenhada em conjunto com empresas e instituições do setor, oferecendo uma visão ampla e profundamente conectada à prática profissional.
O conteúdo programático do curso vai desde o panorama global da eólica offshore até temas técnicos e regulatórios, como meteorologia energética, integração ao sistema elétrico, análise econômica, legislação, fundações offshore e projetos de componentes mecânicos e elétricos. O corpo docente é formado por mestres, doutores e especialistas de instituições como GWEC, ABEEólica, ISI-ER e órgãos reguladores.
A energia eólica offshore — gerada por turbinas instaladas no mar ou em grandes corpos d’água — já é uma realidade consolidada na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. No Brasil, os investimentos se concentram, sobretudo, nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste. Dados do Ibama indicam que existem 104 projetos com processos de licenciamento abertos, somando 247,3 gigawatts (GW) de potência instalada potencial em estados como Rio Grande do Norte, Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Segundo estimativas da ABEEólica, a implantação e operação desses empreendimentos exigirão milhares de trabalhadores nos próximos anos. O próprio Senai-RN é responsável pelo projeto da primeira planta-piloto de eólica offshore do país — um sítio de testes no Rio Grande do Norte que foi o primeiro a obter licença prévia e tem como foco o desenvolvimento de tecnologias e a redução de riscos para futuros investimentos.
Criada como a primeira faculdade brasileira dedicada às energias renováveis, a Faeti funciona em Natal, em um estado que lidera a geração eólica no país e concentra centros de referência do Senai para formação profissional, inovação e pesquisa aplicada. Credenciada pelo Ministério da Educação (MEC) em agosto de 2023, a instituição teve seu projeto elogiado pelo Inep, que destacou a infraestrutura tecnológica, os laboratórios para aulas práticas e a contribuição para o desenvolvimento socioeconômico. A primeira turma de Engenharia Mecânica ingressou em março de 2024.

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