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Quarta-feira, 06 de Maio 2026

Saúde

Cartilha do Inca integra saberes de terreiros na prevenção do câncer para mulheres negras

A publicação, desenvolvida por pesquisadoras do Instituto Nacional de Câncer, é um dos resultados da pesquisa Promoção da Saúde e Prevenção do Câncer em Mulheres Negras.

Redação
Por Redação
Cartilha do Inca integra saberes de terreiros na prevenção do câncer para mulheres negras
© Joédson Alves/Agência Brasil
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O Instituto Nacional de Câncer (Inca) lançou recentemente a cartilha intitulada "Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer". Este material, acessível online, detalha os tipos de câncer mais prevalentes entre mulheres negras, além de orientar sobre hábitos diários que podem influenciar o risco da doença. A publicação também aborda como o racismo e a discriminação religiosa contra praticantes de religiões de matriz africana podem dificultar o acesso a diagnósticos e tratamentos adequados.

Ilustrada com representações de mulheres e famílias negras e referências à mitologia iorubá, a cartilha do Inca adota um formato dialógico. Ela ressalta, por exemplo, a importância da amamentação na prevenção do câncer de mama, aponta os sinais de alerta para o câncer de intestino e esclarece a forma de transmissão sexual do câncer de colo de útero.

As figuras das yabás, orixás femininas, são apresentadas como inspiração para o autocuidado e a busca por uma vida plena. Dessa forma, o material não só encoraja a adoção de hábitos saudáveis, mas também enfatiza a necessidade de realizar exames periódicos, reiterando que a detecção precoce permanece a estratégia mais eficaz no combate ao câncer. A cartilha disponibiliza informações sobre os exames essenciais para cada fase da vida da mulher.

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Concebida para ser distribuída em terreiros, a cartilha é fruto do trabalho de pesquisadoras do Inca. Sua criação é um dos desdobramentos da pesquisa "Promoção da Saúde e Prevenção do Câncer em Mulheres Negras", conduzida entre 2023 e 2025 em colaboração com mulheres dos templos de candomblé Ilê Axé Obá Labí, em Pedra de Guaratiba (zona sudoeste do Rio de Janeiro), e Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê Adê Omi Arô, em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense).

O impacto do racismo na saúde

O material também elucida como o racismo pode intensificar os riscos de adoecimento e dificultar o acesso a serviços e tratamentos de saúde. Um exemplo disso é o mito de que mulheres negras possuem maior tolerância à dor, o que pode levar à subestimação de seus sintomas.

Iyá Katiusca de Yemanjá, do terreiro Obá Labí e participante na elaboração da cartilha, salienta que outras modalidades de discriminação igualmente afastam essa população dos serviços de saúde.

"Em clínicas da família onde somos atendidas, ao solicitarmos que nos chamem pelos nossos nomes religiosos, frequentemente ouvimos provocações como: 'de onde você tirou esse nome?'", relata a Iyá.

O papel dos terreiros na promoção da saúde

Em Pedra de Guaratiba, ela coordena um programa de saúde popular e acesso a direitos, aberto a toda a comunidade, dentro do espaço do candomblé.

"Os terreiros sempre foram promotores da saúde", afirma a sacerdotisa. "Dispomos de banhos de ervas, lavagens, chás, um modo de vida e um cuidado especial com a saúde íntima da mulher", detalha Katiusca de Yemanjá.

"Nós compreendemos o corpo em sua totalidade, especialmente o das mulheres negras da periferia, que muitas vezes se cuidam menos devido à sobrecarga de trabalho. Nosso objetivo é fortalecer esse corpo para que busquem os serviços de saúde", complementa.

Racismo religioso e acesso a serviços

Mãe Nilce de Iansã, coordenadora-geral da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), também alerta para a discriminação enfrentada pelas pacientes devido à sua indumentária durante os atendimentos.

"Existem muitos relatos de hospitais que exigem que as pessoas retirem seus fios de conta para examinar pés ou mãos, sem que haja necessidade. Não usamos os fios de conta como adorno, mas como proteção", esclarece, acrescentando que "se a consulta não é prejudicada pelo uso do fio de conta, ele deve ser mantido".

Para Mãe Nilce, que recebeu tratamento para câncer de pulmão no próprio Inca, no Rio de Janeiro, o racismo religioso configura-se como um determinante social na vida das mulheres negras. Isso significa que, além dos fatores genéticos, as condições do ambiente em que vivem exercem influência crucial sobre sua saúde.

Os saberes, rituais e práticas religiosas ancestrais podem atuar como um valioso suporte, tanto na promoção da saúde, ao veicular informações precisas, quanto no acolhimento de mulheres diagnosticadas com a doença.

"Os terreiros são reconhecidos como locais de acolhimento, cuidado e solidariedade, além de serem espaços vibrantes de cultura e religiosidade afro-brasileira", afirmam as autoras da cartilha do Inca. "Promover o diálogo entre esse universo e os saberes técnicos pode nos auxiliar na prevenção de doenças como o câncer, e essa foi a proposta central da cartilha", concluem.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
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