A Defesa Civil de Natal monitora atualmente de 10 a 12 lagoas de captação na capital, com risco iminente de transbordamento. Segundo a chefe do órgão, Fernanda Jucá, as áreas que inspiram maior atenção já possuem histórico de transbordar. Dentre os locais, estão as lagoas de Santarém, Jardim Progresso, José Sarney, Panatis, São Conrado e Preá, e outras. A Semov informou que as chuvas do final de semana causaram transbordamentos em Panatis, Jardim Progresso, José Sarney e Santarém.
A TRIBUNA DO NORTE visitou três lagoas na zona Norte de Natal nessa terça-feira (8). Todas estão tomadas pelo mato e há lixo ao redor e também dentro das lagoas. No Panatis e em Santarém, a reportagem ainda encontrou bastante água, fruto do temporal que caiu na cidade na madrugada do sábado para o domingo. A Defesa Civil disse que está intensificando o monitoramento na capital em razão do período chuvoso.
“O trabalho agora é de acompanhamento e de resposta. A gente observa o nível das lagoas mediante risco de grande volume de chuva e intensifica o número de visitas a esses locais”, explica Fernanda Jucá, da Defesa Civil.
O secretário de Obras Públicas e Infraestrutura de Natal, Carlson Gomes, disse que a pasta tem um cronograma de limpeza de lagoas e que aguarda agora o volume de água baixar para dar continuidade às ações. Segundo ele, a lagoa do Santarém, que transbordou com as recentes chuvas, já havia recebido o serviço este ano.
“Temos um cronograma, que classifica as lagoas em alto, médio e baixo risco. Estamos seguindo esse cronograma e monitorando todos os locais para evitar outros problemas. Temos o serviço de limpeza de fundo de lagoa, que é feito juntamente com o trabalho da Urbana”, explicou.
Medo
Em duas das lagoas de captação que transbordaram no final de semana, houve alagamentos em residências. Moradores do entorno da lagoa do Panatis perderam móveis, colchões, roupas e eletrodomésticos. O pedreiro Ivonaldo Fernandes, de 48 anos, só conseguiu salvar a geladeira e o fogão, que colocou em cima de uma mesa.
“Aqui em casa nunca tinha alagado, mas foi tanta água que ficamos inundados”, relata Ivonaldo. “A gente já nem dorme mais direito. Na segunda-feira , começou a neblinar, já ficamos naquela expectativa”, completou.
O montador ótico Everton Gomes, de 33 anos, conta que ele, a esposa e os filhos não estão dormindo em casa desde o final de semana. O medo de que tudo volte a acontecer é grande, ainda mais porque a mulher, a dona de casa Fernanda Borges, de 27 anos, está grávida de sete meses. “Perdemos todo o enxoval do nosso filho”, lamenta Fernanda. “A gente vem para cá durante o dia ainda para ver o que dá para salvar. Recebemos um colchão de doação e estamos pensando em voltar a dormir em casa, mas ainda estamos com muito medo”, descreve o montador ótico.
O músico Francisco Nivaldo também está assustado, mas nos próximos dias, pelo menos, ele não deve ficar pela região. Na tarde dessa terça, a Defesa Civil interditou a casa de Francisco, por causa dos estragos provocados pela inundação. “Vou ter que sair. Me aconselharam a procurar a Semtas para tentar um auxílio e deixar a casa”, afirma.
A situação afetou também quem vive nas ruas, já que todas a região do entorno da lagoa foi inundada. Francisco Alexandre, de 49 anos, está na área desde 2021 e ficou muito assustado com o que viu. “Foi bastante água. Quando começou a chover, ninguém teve mais sossego. Durmo numa calçada em uma rua aqui e perto e, passei a noite de sábado para domingo dentro d'água”, comentou.
Na Lagoa de Santarém, mais histórias de perdas e de medo com a possibilidade de novos transbordamentos. Lucimária da Conceição, de 36 anos, está desempregada e se mudou para a região há dois meses. As noites, especialmente, não têm sido fáceis para ela após o final de semana. A água que transbordou da lagoa derrubou o muro da casa dela.
“Não consigo dormir. Fico ansiosa, com medo. A gente fica observando a lagoa, pensando que vai chover e vai acontecer tudo de novo. Estamos praticamente só esperando chegar a 'hora para correr'. Me mudei para cá faz pouco tempo, estou desempregada e acontece isso”, desabafa.
Mesmo nos locais onde não houve transbordamento no final de semana, a apreensão é visível. A frentista Maria de Fátima, de 46 anos, mora vizinho à uma das lagoas de captação do conjunto José Sarney. Ela conta que a lagoa recebeu muita água e quase transbordou. O local sofreu com inundações em 2008.
“A lagoa ficou muito cheia no final de semana. Não chegou a transbordar, mas nós ficamos com muito medo. Cheguei a arrumar algumas coisas para tentar guardar, caso inundasse. Só hoje (terça-feira) é que eu relaxei um pouco mais e desarrumei tudo”, afirma.
“Estamos com muito receio. Não consigo dormir tranquilamente, com medo de a casa ficar alagada e a gente já acordar dentro d'água, como aconteceu da outras vez. Perdi tanta coisa naquela época que quando chove a gente já fica ligada”, relata a frentista mais a frente.
Ela reclama da situação da lagoa e diz que algumas ações foram realizadas há cerca de três meses. “A lagoa está com muito mato. Além disso, o pessoal joga galhos de árvore e lixo. Os funcionários da Prefeitura vieram há uns meses e limparam, mas já está tudo com mato de novo”, reclama.

Comentários: