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Quinta-feira, 30 de Abril 2026

Economia

Estudo aponta razões estruturais para alta nos preços dos alimentos no Brasil

Em quase duas décadas, o custo da alimentação do brasileiro cresceu 302,6%, mais que o dobro da inflação geral do país, que foi de 186,6%.

Redação
Por Redação
Estudo aponta razões estruturais para alta nos preços dos alimentos no Brasil
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Uma análise divulgada nesta terça-feira (31) pela ACT Promoção da Saúde, em colaboração com a Agência Bori, revela que a inflação dos alimentos no Brasil é um problema de natureza estrutural, tornando os produtos frescos mais caros em comparação aos ultraprocessados.

A pesquisa foi conduzida pelo economista Valter Palmieri Junior, com doutorado em desenvolvimento econômico pela Unicamp.

De acordo com ele, a elevação dos preços dos alimentos no Brasil não pode ser explicada unicamente por fatores sazonais, que são flutuações temporárias que tendem a se normalizar com a mudança das estações, como o aumento do tomate na entressafra.

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O economista também argumenta que a inflação alimentar não se deve exclusivamente a fatores conjunturais, que envolvem variações decorrentes de eventos não recorrentes e de curta ou média duração, como a desvalorização cambial abrupta.

O estudo classifica a inflação da alimentação como estrutural, impulsionada por pressões contínuas que demandam reestruturações econômicas para serem resolvidas.

“A inflação é de caráter estrutural, pois não resulta apenas de choques momentâneos, e é específica, por estar ligada às particularidades históricas do modelo de desenvolvimento brasileiro”, explica o pesquisador em seu estudo.

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Crescimento acima da média da inflação

Ao longo de quase 20 anos, o preço dos alimentos para os brasileiros aumentou 302,6%, o que significa uma multiplicação por quatro. Em contraste, a inflação geral do país acumulou 186,6%. Isso indica que, entre junho de 2006 e dezembro de 2025, o aumento do custo dos alimentos superou em 62% o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação.

Para comparação, Palmieri Junior aponta que, nos Estados Unidos, no mesmo período, os preços dos alimentos subiram apenas cerca de 1,5% acima da inflação geral.

O pesquisador destaca que, no Brasil, quando ocorrem crises e os preços dos alimentos disparam, a tendência de queda posterior é limitada.

“É fácil os preços subirem, mas a dificuldade em fazê-los recuar depois é grande. Observei isso em comparação com outros países”, comentou o economista durante a apresentação do estudo à imprensa.

Ao analisar os diferentes grupos de alimentos, a pesquisa revela que os itens que mais registraram aumentos foram:

  • Tubérculos, raízes e leguminosas (359,5%),
  • Carnes (483,5%) e
  • Frutas (516,2%)

Alimentos saudáveis versus ultraprocessados

O levantamento indica que a perda do poder de compra afeta mais intensamente os alimentos in natura.

“Se uma pessoa dedicava, por exemplo, 5% de seu salário mínimo à compra de alimentos em 2006, hoje, com a mesma porcentagem, ela consegue adquirir mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis”, afirma.

Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas diminuiu aproximadamente 31%; e para hortaliças e verduras, 26,6%.

Por outro lado, a capacidade de compra de refrigerantes (+23,6%) e de embutidos como presunto (+69%) e mortadela (+87,2%) aumentou.

O economista explica que o barateamento dos ultraprocessados está relacionado à presença de aditivos industriais, que possuem menor variação de preço. Outro fator é o cultivo em sistemas de “monocultura”, onde o solo é usado repetidamente para poucos tipos de culturas, o que compromete a resiliência.

“Poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, são transformados em milhares de produtos distintos através da adição de aditivos químicos”, detalha.

O professor avalia que a menor influência da inflação nos alimentos ultraprocessados direciona as escolhas dos consumidores para produtos menos saudáveis.

“Isso provoca uma alteração nos padrões de consumo”, observa.

Uma pesquisa recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) destacou os motivos que incentivam o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em áreas urbanas.

Modelo de exportação

Um dos fatores que contribuem para o aumento contínuo dos preços é a inserção internacional do Brasil e seu modelo agroexportador.

O país, sendo um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, prioriza a venda para o mercado externo, visando receber em dólares, em detrimento do abastecimento interno.

Na década de 2000, o Brasil exportava 24,2 milhões de toneladas de alimentos e importava 14,2 milhões. Em 2025, as exportações alcançaram 209,4 milhões de toneladas, enquanto as importações totalizaram 17,7 milhões.

“Este indicador demonstra a quantidade líquida de alimentos produzidos no país que são destinados ao mercado externo, reforçando o papel do Brasil como grande exportador e aumentando a influência do mercado internacional sobre os preços internos”, ressalta.

A prioridade dada às exportações leva os produtores brasileiros a focar em itens de alta demanda internacional, como soja, milho e cana-de-açúcar.

A área cultivada com essas culturas expandiu de 41,93 milhões de hectares em 2006 para 79,30 milhões em 2025, uma área maior que o território da Alemanha (35,7 milhões de hectares).

No mesmo período, a área destinada ao cultivo de arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu de 10,22 milhões de hectares para 6,41 milhões. Para se ter uma ideia, o estado da Paraíba tem uma área de 5,64 milhões de hectares.

Insumos com custos elevados

Outro fator apontado como causa do encarecimento recorrente dos alimentos é o custo dos insumos agrícolas, como fertilizantes, defensivos, colheitadeiras e outras máquinas.

O estudo comparou os preços médios dos triênios 2006-2008 e 2022-2024, identificando os seguintes aumentos em termos reais:

  • fertilizantes: 2.423%;
  • herbicidas e reguladores de crescimento: 1.870%;
  • colheitadeiras: 1.765%;
  • inseticidas: 1.301%;
  • ureia (fertilizante nitrogenado): 981%;
  • peças e componentes de máquinas agrícolas: 667%.

Para o pesquisador, isso reflete a falta de uma estratégia de desenvolvimento que promova commodities com base em insumos e tecnologias controladas por oligopólios de países desenvolvidos.

O autor explica a existência de um ciclo vicioso que impacta os preços domésticos.

“Isso afetou o preço para todos, inclusive para o pequeno produtor de feijão. Ele não exporta, mas arca com o alto custo dos insumos, e esse custo é repassado para o preço do feijão”, exemplifica.

Concentração do mercado

Essa dependência está associada a outro fator que, na opinião de Palmieri Junior, contribui para a inflação alimentar: a concentração da cadeia produtiva.

O estudo revela que apenas quatro empresas estrangeiras de sementes detêm 56% do mercado global.

No setor de pesticidas, quatro companhias internacionais dominam 61% do mercado.

Em máquinas agrícolas, quatro empresas estrangeiras respondem por 43% do mercado.

Na indústria alimentícia, o estudo aponta que cinco marcas de duas empresas concentram 74,2% do mercado brasileiro de margarinas.

Uma situação semelhante ocorre no mercado de macarrão instantâneo (73,7%). Cinco marcas de três empresas somam 83% do mercado de chocolates e bombons.

Inflação oculta

O economista menciona que a inflação dos alimentos é ainda mais severa do que os números indicam, devido à “inflação invisível”, que não pode ser medida. Ele define esse fenômeno como produtos que mantêm o preço, mas alteram seus ingredientes, substituindo componentes mais caros por mais baratos, o que resulta na perda de qualidade do produto final.

Um exemplo é o sorvete, que passa a ter menos leite e mais açúcar. O mesmo ocorre com o chocolate, que tem a redução de cacau em pó em favor do açúcar.

“Se o custo é reduzido piorando a qualidade e o produto é vendido pelo mesmo preço, trata-se de uma inflação não computada pelos órgãos de pesquisa. Como isso pode ser detectado?”, questiona.

Propostas de solução

A publicação apresenta algumas estratégias com potencial para reverter a trajetória inflacionária dos alimentos.

“O preço da comida não é apenas uma variável econômica. Ele reflete escolhas políticas, de distribuição e civilizatórias sobre o tipo de sociedade que se deseja construir”, enfatiza o autor.

Entre as sugestões estão:

  • desconcentração produtiva e fortalecimento das economias locais;
  • reequilíbrio entre exportação e abastecimento interno;
  • fortalecimento de instituições como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e as Centrais de Abastecimento dos estados (Ceasas);
  • ampliação do acesso à terra;
  • concessão de crédito à produção condicionado ao direcionamento para o mercado interno.

Palmieri Junior citou exemplos de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e nações europeias, que implementaram reformas agrárias.

“Isso significa tornar a terra mais acessível a uma parcela maior da população. Contribui para a soberania alimentar”, defende.

Para ele, a reforma agrária beneficia os interesses do capitalismo.

“Se o alimento é barato, sobra mais poder de compra para o cidadão adquirir outros bens produzidos pelo capitalismo, que geram lucros maiores”, avalia.

“Se para a população de um país, uma parcela significativa da renda precisa ser destinada à alimentação, outros setores produtivos são prejudicados”, conclui.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
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