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Segunda-feira, 04 de Maio 2026

Saúde

Quase metade das mortes por câncer no Brasil poderia ser evitada

Pesquisa aponta que 109,4 mil óbitos de diagnósticos de 2022 seriam prevenidos com medidas adequadas.

Redação
Por Redação
Quase metade das mortes por câncer no Brasil poderia ser evitada
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
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Um levantamento global sobre a mortalidade por câncer revela que 43,2% dos falecimentos decorrentes da doença no Brasil poderiam ser prevenidos. Isso seria possível através de ações de prevenção, diagnóstico em estágios iniciais e acesso aprimorado a tratamentos.

A mesma investigação estima que, dos aproximadamente 253,2 mil casos de câncer identificados no país em 2022, cerca de 109,4 mil óbitos seriam evitáveis em até cinco anos após a descoberta da enfermidade.

Intitulado "Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer no mundo", o estudo foi publicado na edição de março da renomada revista científica The Lancet e está acessível para consulta online.

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O trabalho é assinado por doze pesquisadores, sendo oito deles afiliados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), uma entidade vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS) e com sede em Lyon, na França.

Os cientistas categorizam as quase 110 mil mortes por câncer evitáveis no Brasil em duas frentes: 65,2 mil são consideradas preveníveis, ou seja, a doença poderia nem ter se manifestado; e outras 44,2 mil seriam evitáveis por meio de um diagnóstico precoce e tratamento adequado.

Cenário global

A pesquisa oferece uma perspectiva abrangente sobre a mortalidade por câncer em escala mundial, analisando dados de 35 tipos da doença em 185 nações.

Em âmbito global, a proporção de óbitos que poderiam ser evitados atinge 47,6%. Isso significa que, dos 9,4 milhões de falecimentos causados pela doença, aproximadamente 4,5 milhões poderiam ter sido prevenidos.

O grupo de pesquisadores detalha que, do total de mortes, um terço (33,2%) é prevenível, enquanto 14,4% poderiam ser evitadas com diagnóstico em tempo hábil e acesso a terapias.

Ao estimar o número de mortes que poderiam ser evitadas por ações de prevenção, os pesquisadores destacam cinco fatores de risco principais:

  • tabagismo;
  • consumo de álcool;
  • excesso de peso;
  • exposição à radiação ultravioleta;
  • e infecções (provocadas por vírus como HPV e hepatite, e pela bactéria Helicobacter pylori).

Desigualdades regionais e sociais

Ao comparar diferentes países, regiões geográficas e seus respectivos níveis de desenvolvimento, o estudo evidencia significativas disparidades globais.

Nações do norte da Europa, por exemplo, registram percentuais de mortes evitáveis próximos a 30%. A Suécia lidera com 28,1%, seguida pela Noruega (29,9%) e Finlândia (32%). Isso implica que, a cada dez óbitos, apenas três poderiam ser prevenidos.

No extremo oposto, as dez maiores proporções de mortes evitáveis concentram-se em países africanos. Serra Leoa apresenta a situação mais crítica (72,8%), seguida por Gâmbia (70%) e Malaui (69,6%).

Nesses locais, sete em cada dez falecimentos poderiam ser prevenidos com maior foco na prevenção, melhor diagnóstico e acesso a tratamento.

Os menores índices de mortes evitáveis são observados em:

  • Austrália e Nova Zelândia: 35,5%;
  • Norte da Europa: 37,4%;
  • América do Norte: 38,2%.

As maiores proporções, por sua vez, são encontradas em:

  • África Oriental: 62%;
  • África Ocidental: 62%;
  • África Central: 60,7%.

A América do Sul registra 43,8% de mortes por câncer consideradas evitáveis, um índice bastante similar ao do Brasil.

Impacto do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

As desigualdades também se manifestam quando os países são agrupados conforme o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um indicador da Organização das Nações Unidas (ONU) que avalia saúde, educação e renda.

Em nações com baixo IDH, que denota uma qualidade de vida inferior, seis em cada dez (60,8%) mortes por câncer poderiam ter sido prevenidas.

Em sequência, aparecem os grupos de IDH alto (57,7%), médio (49,6%) e muito alto (40,5%). O Brasil é classificado como um país de IDH alto.

A pesquisa revela que, nos países com baixo e médio IDH, o câncer de colo do útero ocupa a primeira posição na lista de mortes evitáveis.

Contudo, nos grupos de IDH alto e muito alto, este tipo de câncer sequer figura entre os cinco principais em número de mortes que poderiam ser prevenidas.

Outra forma de evidenciar a disparidade entre as nações é a diferença nas taxas de mortalidade por câncer de colo do útero. Em países com IDH muito alto, a proporção é de 3,3 vítimas a cada 100 mil mulheres, enquanto nos de baixo IDH, essa relação eleva-se para 16,3 por 100 mil.

Principais tipos de câncer e evitabilidade

O estudo publicado na The Lancet estima que 59,1% das mortes evitáveis estão associadas a cânceres de pulmão, fígado, estômago, colorretal e colo do útero.

Quando se analisam apenas os casos de câncer que poderiam ser prevenidos por medidas profiláticas, o câncer de pulmão emerge como o principal causador de óbitos, com 1,1 milhão de mortes, correspondendo a 34,6% de todos os falecimentos por câncer preveníveis.

Já o câncer de mama em mulheres foi o que registrou o maior número de mortes tratáveis, ou seja, pacientes que poderiam ter sobrevivido com diagnóstico em tempo hábil e acesso a tratamento adequado. Foram 200 mil óbitos, representando 14,8% do total de mortes em casos passíveis de tratamento.

Estratégias de combate e prevenção

Os pesquisadores indicam diversas estratégias para reduzir o número de mortes evitáveis. Entre elas, destacam-se a implementação de campanhas e ações que visem à diminuição da incidência do tabagismo e do consumo de álcool, além de um aumento nos preços desses produtos como forma de desestimular sua aquisição.

A pesquisa também direciona atenção ao excesso de peso. “O número crescente de indivíduos com sobrepeso representa desafios consideráveis para a saúde global”, alertam os autores.

Sugerem iniciativas como intervenções “que regulam a publicidade, a rotulagem e a majoração de impostos sobre alimentos e bebidas não saudáveis”.

Os pesquisadores enfatizam a relevância da prevenção de infecções associadas ao câncer, como o HPV, que pode ser evitado por meio da vacinação.

Os autores também apontam a necessidade de focar em metas relacionadas à detecção do câncer de mama.

“É crucial alcançar as metas da OMS de que pelo menos 60% dos cânceres de mama sejam diagnosticados nos estágios um ou dois [em uma escala de zero a cinco] e que mais de 80% dos pacientes recebam o diagnóstico em até 60 dias após a primeira consulta”, afirmam.

“São necessários esforços globais para adaptar a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento do câncer a fim de enfrentar as desigualdades nas mortes evitáveis, especialmente em países com baixo e médio IDH”, conclui o estudo.

No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) realizam campanhas regulares de prevenção e detecção precoce.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
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