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Sexta-feira, 03 de Abril 2026

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Moradores de Perus, em São Paulo, denunciam irregularidades em audiência pública

Suspeitas indicam que pessoas foram cooptadas via WhatsApp para endossar projeto de incinerador de resíduos, enquanto a comunidade local se opõe à iniciativa.

Redação
Por Redação
Moradores de Perus, em São Paulo, denunciam irregularidades em audiência pública
© Rovena Rosa/Agência Brasil
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A comunidade de Perus, na zona noroeste da capital paulista, relata ter sido marginalizada durante a audiência pública inicial, de natureza consultiva, organizada pela prefeitura e pelo governo estadual para discutir os efeitos da instalação de uma usina de incineração de resíduos. Há fortes indícios de que indivíduos externos à localidade foram mobilizados, supostamente para enfraquecer a resistência dos moradores, que se opõem veementemente ao projeto.

A proposta em questão, denominada oficialmente Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é de responsabilidade da Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), empresa especializada no tratamento de resíduos de saúde. O processo envolve a submissão de estudos e documentação pertinente à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para análise e licenciamento.

De acordo com informações levantadas pela Agência Brasil, diversos ônibus estacionaram em frente ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, situado no bairro Vila Fanton, na tarde de segunda-feira (1º). Os ocupantes desses veículos, estranhos aos residentes de Perus, formaram uma fila extensa, precedendo os moradores locais, e rapidamente preencheram o espaço do evento. Eles também se apressaram em se inscrever para falar, com o suposto intuito de impedir que os moradores genuínos apresentassem suas objeções e questionamentos.

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Uma fonte ouvida pela reportagem admitiu ter recebido remuneração para comparecer à audiência, passando-se por moradora de Perus. A pessoa detalhou que, há aproximadamente três anos, busca trabalho em grupos que recrutam audiência para programas de televisão populares, frequentemente aqueles que encenam ou dramatizam questões familiares.

Essa testemunha, cuja identidade será mantida em sigilo para protegê-la de possíveis retaliações, revelou a existência de um indivíduo encarregado de instruir o grupo sobre as reações a serem exibidas em diferentes momentos da audiência, simulando apoio ou desaprovação conforme a necessidade.

Devido à lotação máxima do teatro do CEU, aproximadamente 500 moradores foram impedidos de acessar e participar do evento. Embora funcionários das esferas municipal e estadual tivessem instalado duas televisões na área de entrada do teatro, o local ainda não foi suficiente para acomodar todos os presentes, resultando em muitas pessoas, incluindo crianças, esperando sob a chuva.

No exterior do prédio, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) estavam posicionados, equipados com escudos e gás de pimenta. Em um ambiente de tensão, eles teriam chegado a impedir a manifestação de vereadores. A assessoria da prefeitura, por sua vez, contestou essa alegação, negando o emprego de armamentos de menor potencial ofensivo.

Após reiterados pedidos, três líderes do povo Guarani Mbya, da Terra Indígena do Jaraguá, conseguiram adentrar o local. O distrito do Jaraguá, estabelecido em 1948, tem suas origens na região de Perus, o que justificou o interesse de seus habitantes em participar do debate.

Mario Bortoto, engenheiro químico e uma das vozes ativas no movimento de oposição, ressalta que a consulta pública é um direito garantido por lei e argumenta que a maneira como o evento foi conduzido legitima a organização de uma nova audiência pela própria comunidade. Adicionalmente, os líderes Guarani Mbya planejam promover um encontro independente.

Bortoto critica o projeto, alegando que o modelo de incinerador proposto é obsoleto em diversas partes do mundo. Ele expressa preocupação não apenas com as cinzas tóxicas que seriam emitidas, mas também com o aumento significativo do tráfego de caminhões na área. Na sua visão, a prefeitura não possuiria a capacidade de fiscalizar adequadamente se os níveis de emissão estariam dentro dos padrões permitidos.

O químico sustenta que, caso o projeto seja aprovado, ele agravará os problemas de saúde de uma população já desprovida de assistência adequada. Ele ainda associa a escassez de profissionais de saúde ao preconceito contra a região, apontando uma relação entre esses fatores e a imagem negativa de Perus entre os habitantes de São Paulo.

"Muitas vezes, profissionais de saúde evitam trabalhar na periferia devido a questões de segurança e distância. Enfrentamos uma grave carência de assistência médica neste território. Além disso, há desafios habitacionais, com a construção de inúmeros edifícios sem a infraestrutura adequada para os novos residentes. Somam-se a isso as deficiências na educação e a escassez de equipamentos culturais. Em suma, compartilhamos os mesmos problemas enfrentados por outras periferias de São Paulo", sintetiza.

Thais Santos, química e consultora da WWF Brasil, também uma das figuras centrais nas mobilizações, testemunhou desde a juventude as resistências anteriores, que uniram até mesmo diferentes grupos religiosos na defesa do território. Em declaração à Agência Brasil, ela indicou que a necessidade de lutar motivou sua trajetória profissional. Seu doutorado em Bioenergia, por exemplo, foi uma escolha de qualificação voltada para beneficiar sua comunidade.

"A audiência deveria ser um ambiente democrático. No entanto, o que presenciamos foi uma manipulação tanto da informação quanto da própria audiência", criticou, notando que o horário do evento conflitava com a jornada de trabalho da maioria dos residentes, pertencentes à classe trabalhadora.

Em contrapartida ao projeto do incinerador, moradores e ativistas ambientais propõem a criação de um Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera na região. A ideia é dar continuidade a um modelo já implementado por eles através de uma agência de turismo local, que busca valorizar a conexão com a natureza, distanciando-se de práticas predatórias, e fortalecer a histórica resistência política do lugar.

Histórico da região

Repetidamente, os moradores de Perus foram procurados por representantes da empresa Loga, que buscavam convencê-los a endossar a construção. A comunidade local já carrega o estigma da Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, local onde foram ocultados corpos de perseguidos políticos durante a ditadura militar iniciada em 1964, além da proximidade com instituições como o Hospital Psiquiátrico do Juquery, notório por violações de direitos humanos.

O Mapa da Desigualdade, elaborado pela Rede São Paulo com dados de 2024 e publicado em 2025, aponta uma expectativa de vida média de 62 anos para o distrito de Perus. A área se destaca, simultaneamente, na 5ª posição em cobertura vegetal, na 6ª em emissão de poluentes atmosféricos por área (kg/km²/dia), um cálculo que considera o tráfego de ônibus, e na 66ª colocação em Pontos de Entrega Voluntária (PEV).

Bortoto recorda que sua comunidade e outras vizinhas já enfrentaram pressões para aceitar a instalação de projetos similares, como o aterro sanitário na Chácara Maria Trindade, no distrito de Anhanguera, no início dos anos 2000. Em 1979, foi inaugurado o aterro sanitário Bandeirantes, com 140 hectares, que operou por 28 anos, recebendo entre 35 e 40 milhões de toneladas de resíduos.

Outro lado

Ao ser questionada pela reportagem, a Cetesb assegurou que todas as manifestações apresentadas na audiência serão incorporadas ao processo de licenciamento e consideradas na avaliação. "A Cetesb esclarece que o projeto da URE em Perus está atualmente em fase de análise técnica. O trâmite segue o rito legal do licenciamento ambiental, fundamentado no Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) submetidos pela companhia", informou.

Em nota enviada à Agência Brasil, a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) do estado de São Paulo se manifestou:

A concessionária Loga e a prefeitura, em resposta à solicitação da Agência Brasil, enviaram a seguinte nota conjunta:

"A SP Regula e a Loga esclarecem que as Unidades de Recuperação de Energia (UREs), contempladas no contrato de concessão de resíduos sólidos do município, diferem substancialmente dos incineradores obsoletos das décadas de 1970 e 1980. Essas são instalações contemporâneas, que não representam ameaça à saúde pública e são largamente empregadas, inclusive em zonas residenciais, em diversas nações", afirmam.

A URE em questão será parte integrante do futuro Ecoparque Bandeirantes, com a finalidade de diminuir o volume de resíduos encaminhados a aterros, produzir energia, gerar postos de trabalho e intensificar a proteção ambiental. A URE Bandeirantes está projetada para processar até mil toneladas de resíduos diariamente, permitindo a recuperação de aproximadamente 64% do material e o envio de cerca de 36% para aterro sanitário externo.

A SP Regula e a Loga reiteram a relevância da participação cívica neste procedimento e informam que a audiência pública ocorrida ontem (31) visou apresentar o projeto à população, esclarecer questionamentos e coletar sugestões no contexto do licenciamento ambiental.

A Loga declara que não ofereceu qualquer tipo de proposta, benefício ou vantagem a líderes ou participantes, e que não há provas que corroborem as acusações feitas. A empresa afirma que a presença do público foi espontânea, seguindo a ordem de chegada e respeitando a capacidade máxima do local, em consonância com as normas de segurança e o rito do licenciamento. A Loga reafirma seu empenho na transparência e no diálogo com a comunidade, enfatizando que a discussão sobre o empreendimento deve se fundamentar em dados técnicos, informações oficiais e no processo de licenciamento ambiental estabelecido".

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
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