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Sexta-feira, 03 de Abril 2026

Economia

Conflito no Oriente Médio revela vulnerabilidade energética do Brasil, aponta ex-líder da Petrobras

Em declarações à Agência Brasil, Gabrielli ressaltou que os EUA buscam influenciar o mercado global de petróleo através de ações na Venezuela e no Irã.

Redação
Por Redação
Conflito no Oriente Médio revela vulnerabilidade energética do Brasil, aponta ex-líder da Petrobras
© Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados
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A instabilidade gerada pelo conflito no Irã e o recente aumento nos preços do petróleo, com a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz, evidenciam a fragilidade energética brasileira. Essa vulnerabilidade é acentuada pela paralisação de projetos de expansão do refino no país, impactados pela Operação Lava Jato e pela influência de companhias petrolíferas internacionais.

Essa análise é de José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que apresentou recentemente o livro "Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro". A obra aborda as perspectivas do hidrogênio como vetor na transição energética, tendo sido publicada pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

Em entrevista concedida à Agência Brasil, Gabrielli detalhou que os Estados Unidos (EUA) exercem influência no cenário global do petróleo por meio de suas intervenções na Venezuela e no Irã. Ele também previu que o conflito alterará a dinâmica comercial, possivelmente aumentando a participação do Brasil, Canadá e Guiana no fornecimento de petróleo bruto para China e Índia.

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Contudo, a falta de capacidade de refino para suprir a demanda interna, especialmente por diesel, deixaria o Brasil suscetível às flutuações do mercado atual. O ex-presidente da Petrobras também comentou sobre o papel das empresas importadoras de combustíveis no Brasil e os impactos da guerra na transição energética. A entrevista completa pode ser conferida a seguir:

Agência Brasil: Quais são os impactos da guerra no Irã para o comércio mundial de petróleo e gás?

Sergio Gabrielli: Vivenciamos dois choques significativos em 1973 e 1979, períodos de instabilidade política no Oriente Médio que elevaram os preços do barril e desestabilizaram a economia global. Agora, enfrentamos um terceiro grande choque do petróleo, cujos efeitos serão estruturais, modificando não apenas a comercialização de petróleo, mas, sobretudo, o mercado de gás, em virtude dos ataques a importantes fontes produtoras globais.

No setor petrolífero, o impacto inicial pode ser mais contido, mas se estenderá a longo prazo. Isso se deve ao fato de que as principais novas refinarias do mundo estão sendo construídas no Oriente Médio, em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã. O principal destino do petróleo do Golfo Pérsico são a China e a Índia.

A política externa agressiva adotada pelo governo Trump demonstra um claro objetivo de controle do mercado de petróleo. Não é coincidência que sua primeira ação tenha sido o sequestro da figura presidencial da Venezuela, impondo uma série de medidas favoráveis aos EUA.

Essa estratégia se justifica pela complementaridade entre o tipo de petróleo venezuelano e as refinarias norte-americanas, que são altamente adaptadas a esse recurso.

Adicionalmente, o Irã, segundo maior produtor do Oriente Médio após a Arábia Saudita, possui um mercado próprio devido às sanções impostas pelos EUA. O petróleo iraniano abastece significativamente a China e outras regiões por meio de um mercado paralelo, estabelecido em resposta às sanções.

Com o conflito em curso, a exportação de petróleo iraniano sofrerá alterações. Ao controlar o Estreito de Ormuz, o Irã implementou uma política estratégica, permitindo a passagem apenas de embarcações que realizem pagamentos em yuans, a moeda chinesa.

Isso expõe outra faceta da crise: a questão do uso do dólar como unidade de transação neste mercado. Em resumo, o mercado de petróleo passará por transformações, tanto em relação à moeda utilizada quanto à diminuição da relevância do Oriente Médio.

Agência Brasil: Esse era um objetivo do Trump?

Gabrielli: Podemos considerar isso um efeito colateral da política de Trump.

Agência Brasil: Qual o objetivo dos EUA ao intervir agora no Irã?

Gabrielli: O objetivo é capturar esse mercado paralelo que o Irã estabeleceu à margem das sanções. Além disso, temos os outros três maiores produtores mundiais: Canadá, Guiana e Brasil. Esses três países são cruciais para a nova oferta de petróleo prevista para 2027. A projeção é que esses países adicionem 1,2 milhão de barris diários ao mercado.

Agência Brasil: Consequência da guerra?

Gabrielli: Independentemente da guerra, essa produção é orgânica desses países. Com o conflito, isso certamente contribuirá para a reconfiguração do suprimento para China e Índia, que possuem capacidade de refino, mas carecem de petróleo.

O petróleo que melhor se adequa às maiores refinarias chinesas atualmente é o brasileiro. Já o petróleo canadense é mais adequado para as refinarias menores na China.

Isso alterará a relação entre Canadá, Brasil e China no contexto do petróleo. Aumentará a presença do Brasil na China, que já é significativa. O Brasil figura como o terceiro maior exportador de petróleo para a China.

Agência Brasil: Como o Brasil deve se posicionar diante dessa nova conjuntura?

Gabrielli: O Brasil enfrenta um desafio de segurança energética. Nossa capacidade de refino é insuficiente para atender o mercado nacional de diesel, gasolina e gás de cozinha. A maior dependência reside no diesel, que representa entre 20% e 30% do mercado brasileiro.

Para aprimorar a segurança energética, é imperativo expandir a capacidade de refino. No Brasil, a Operação Lava Jato desencorajou a construção de novas refinarias. A Petrobras planejava erguer cinco unidades, mas apenas uma foi concluída. Entre 1980 e 2014, o país não inaugurou nenhuma refinaria nova; a Refinaria de Pernambuco foi inaugurada em 2014.

Houve também uma campanha histórica contra a expansão da capacidade de refino no Brasil, com raízes em 1911, quando as discussões sobre petróleo se iniciaram no país. Naquela época, empresas como Exxon e Shell já atuavam no Brasil.

Essas companhias sempre controlaram a distribuição no país e se opuseram à expansão do refino nacional. A atual crise torna evidente a importância da segurança energética.

No entanto, em cenários de crise, a construção de refinarias não é uma solução viável a curto prazo, pois o processo leva cerca de cinco anos. A única alternativa imediata, que tem sido adotada pelo governo, envolve a gestão de preços.

Agência Brasil: Qual o papel das importadoras de combustíveis?

Gabrielli: A partir do governo Temer, foram autorizados, se não me engano, quase 300 importadores de derivados no Brasil. As refinarias da Petrobras, durante os governos Temer e Bolsonaro, operaram com capacidade reduzida, cerca de 50%.

Essa redução abriu espaço para o mercado de importadores. Com a ascensão do governo Lula em 2023, as refinarias voltaram a operar com até 93% de sua capacidade, o que já se aproxima do limite. Mesmo assim, a demanda não é totalmente atendida.

Por outro lado, os importadores, que deveriam atuar como reguladores do mercado, demonstram um comportamento especulativo. Eles importam apenas quando o preço internacional é inferior ao nacional, o que exige um aumento do preço doméstico para justificar a operação.

Agência Brasil: Como este novo choque do petróleo afeta a transição energética?

Gabrielli: Não podemos prescindir dos combustíveis fósseis neste momento. Abandoná-los abruptamente seria desastroso, como demonstra o caso de Cuba, que enfrenta dificuldades por ser impedida de receber petróleo.

A ideia de fechar refinarias e interromper a produção de petróleo imediatamente é irrealista. Com o aumento dos preços, o efeito imediato é uma contração na demanda, seguida por uma busca por mais petróleo. No médio prazo, no entanto, observa-se uma mudança de comportamento. Desta vez, a transição energética será impulsionada a longo prazo em decorrência deste novo choque.

Agência Brasil: O hidrogênio verde já representa uma alternativa aos combustíveis fósseis, ou ainda é apenas uma promessa?

Gabrielli: Para que se torne viável, é fundamental a criação de um novo mercado. Atualmente, os maiores consumidores de hidrogênio são as refinarias e as indústrias de fertilizantes.

O hidrogênio possibilitará a descarbonização da indústria e do setor produtivo. Seu crescimento só fará sentido se a produção siderúrgica, de cimento, o transporte pesado e a aviação forem descarbonizados.

Como o hidrogênio é uma molécula de difícil transporte, a produção deve estar próxima ao consumo e competir com os biocombustíveis. A partir do hidrogênio, é possível produzir metanol e, subsequentemente, gasolina, diesel e querosene de aviação sem depender do petróleo.

Agência Brasil: Mas já é viável substituir o petróleo por hidrogênio verde?

Gabrielli: Isso só será possível se houver políticas de demanda que incentivem essa substituição. Em algumas regiões, isso já é uma realidade. Contudo, a previsão geral dos analistas é que o hidrogênio verde domine o mercado de combustíveis por volta de 2035.

Agência Brasil: Não está tão distante.

Gabrielli: De fato. Mas para que isso ocorra em 2035, as decisões precisam ser tomadas agora.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
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