A Justiça mandou soltar 14 homens suspeitos de envolvimento no roubo de centenas de armas da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, no Recife. O crime foi descoberto em janeiro de 2021 e a lista de presos inclui cinco policiais civis, que foram presos na Operação Reverso, deflagrada para apurar o "sumiço" do armamento de dentro do depósito do estado.
O alvará de soltura foi expedido porque o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), responsável pela denúncia, extrapolou o período para a realização de diligências necessárias para o processo, que era até outubro, segundo decisão judicial. Esse prazo havia sido estipulado pelo próprio MP, por meio do Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
A princípio, a Polícia Civil disse que 326 armas foram roubadas. Quase um ano depois, o g1 teve acesso a um documento interno da corporação, que apontou que foram 1.131 armamentos furtados (saiba mais abaixo).
O processo está em segredo de Justiça, mas o g1 teve acesso aos documentos da decisão, que foi proferida, na terça-feira (8), pela Vara dos Crimes Contra a Administração Pública e a Ordem Tributária do Recife.
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Centro e vinte pistolas ponto 40, avaliadas em R$ 600 mil, doadas pela PRF para a prefeitura de Ipojuca, estão entre armas roubadas de depósito da Polícia Civil, no Recife — Foto: Prefeitura de Ipojuca/Divulgação
De acordo com a decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), o processo, na fase de instrução, aguarda desde maio deste ano a realização de perícia do Ministério Público. Essa investigação diz respeito à quebra do sigilo telefônico de 35 celulares apreendidos. Os relatórios da perícia, segundo a decisão, ainda não foram concluídos.
"Todos os prazos razoáveis já foram dilatados por este colegiado a fim de que a prova fosse juntada de modo a permitir a continuação da instrução processual, o que foi feito dada a gravidade e a complexidade do processo, assim também para que fosse resguardada a segurança estatal e a ordem pública, como já se falou por diversas vezes", afirma a decisão.
Por causa disso, o tribunal considerou que não seria possível manter os 14 denunciados em prisão preventiva, pois isso excederia os limites legais.
O tribunal ainda considerou que, embora eles não possam continuar presos, é necessária a aplicação de medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica e, no caso dos policiais, afastamento das funções.
De acordo com a decisão, mesmo com a soltura dos suspeitos, o TJPE deu três meses para que o MPPE conclua as diligências e junte ao processo.
O g1 entrou em contato com o Ministério Público de Pernambuco, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
O caso
Investigação tenta encontrar armas que sumiram de depósito da Polícia Civil
O caso foi descoberto por um comissário, no dia 4 de janeiro de 2021. Ao retornar de férias, ele constatou a falta de seis pistolas, ao manusear caixas de papelão que continham coletes a prova de balas e maletas com armas de fogo para manutenção e posterior uso por policiais civis.
Havia cinco policiais civis com acesso “irrestrito” ao acervo. Eles eram os únicos que tinham acesso às chaves do local. Esse mesmo policial civil realizou buscas na unidade pelas armas e, além de não as encontrar, descobriu que várias outras tinham sido roubadas. Os criminosos deixaram munições dentro das maletas de pistolas, para simular o peso das armas.
Em agosto do ano passado, quase oito meses depois da descoberta, a polícia fez uma coletiva de imprensa em que divulgou que 326 armas foram roubadas. Antes disso, em janeiro do ano passado, a polícia chegou a tratar o caso, com a imprensa, como sumiço de "algumas armas".
O acervo bélico roubado inclui 119 armas da Guarda Municipal de Ipojuca, avaliadas em mais de R$ 500 mil, e armas da Academia de Polícia Civil, que estavam armazenadas na Core por "questões de segurança”, justamente para evitar que fossem roubadas.
Denúncia diz que mais de mil armas sumiram de prédio da PC de Pernambuco
Entretanto, neste ano, o g1 teve acesso a uma lista da Polícia Civil em que constam 1.131 armamentos furtados (confira aqui a lista completa), incluindo 71 metralhadoras, 532 pistolas e 528 revólveres (veja vídeo acima).
Apesar disso, na época, a polícia negou que o roubo tenha sido "subestimado", e afirmou que "o número de 326 armas subtraídas, apresentado em coletiva de imprensa, foi resultado de uma auditoria criteriosa realizada no setor de armaria da Core".