Um aumento expressivo de casos de sarampo nas Américas, com um crescimento de aproximadamente 23 vezes entre 2024 e 2025, levou a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), a emitir um alerta para as nações do continente.
Em 2025, foram contabilizados 14.891 registros da doença nas Américas, um número significativamente superior aos 446 casos registrados no ano anterior, com 29 óbitos confirmados. A situação se agrava em 2026, com dados parciais da Opas indicando 1.031 casos em janeiro, quase 45 vezes mais do que os 23 casos do mesmo período em 2025, sem mortes confirmadas até o momento.
A maior parte dos casos em 2025 e 2026 concentrou-se na América do Norte. No ano de 2025, México (6.428), Canadá (5.436) e Estados Unidos (2.242) foram responsáveis por quase 95% das ocorrências (14.106). Em 2026, essas mesmas nações somaram 948 registros, representando 92% das notificações continentais.
O comunicado da Opas ressalta que a grande maioria dos infectados não possuía histórico de vacinação contra o sarampo. Nos Estados Unidos, 93% dos casos não eram vacinados ou tinham status vacinal desconhecido. No México, o índice foi de 91,2%, e no Canadá, 89%.
A Opas declarou que "o aumento acentuado dos casos de sarampo na região das Américas durante 2025 e no início de 2026 constitui um sinal de alerta que requer uma ação imediata e coordenada por parte dos Estados Membros". A organização já havia retirado o certificado de região livre de transmissão do sarampo do continente em novembro do ano anterior.
Brasil livre
O Brasil registrou 38 casos de sarampo em 2025, sendo a maioria (36) em indivíduos sem histórico vacinal. Em 2024, foram apenas quatro ocorrências, e em 2026, não há casos confirmados. Apesar do aumento pontual entre 2024 e 2025, o país mantém o reconhecimento como livre da doença.
A Opas detalha que, dos 38 casos de 2025, dez foram importados (contraídos no exterior), 25 estavam relacionados à importação e três tiveram a fonte de infecção desconhecida. Os casos confirmados foram distribuídos entre Distrito Federal (um), Maranhão (um), Mato Grosso (seis), Rio de Janeiro (dois), São Paulo (dois), Rio Grande do Sul (um) e Tocantins (25).
Manutenção da vigilância
Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, comentou que o cenário na América do Norte ocorre em um momento de controle do sarampo no Brasil, que recuperou seu certificado de livre da doença em 2024. O país havia perdido esse status em 2018, após um período de circulação do vírus associado ao fluxo migratório e à baixa cobertura vacinal.
Kfouri alertou que a circulação de pessoas entre os países representa um "risco constante" para o Brasil. "Voos diários do Canadá, México e Estados Unidos para cá fazem com que seja inexorável a entrada de alguém com sarampo no nosso território", afirmou à Agência Brasil.
Ele enfatizou a necessidade de o Brasil manter seus esforços para preservar o status de zona livre do sarampo. "Nosso grande desafio é manter a vigilância atenta, reconhecer esses casos suspeitos que entram no país e termos altas coberturas vacinais, para que esses casos que entrem não se traduzam em transmissão sustentada da doença", destacou.
Entenda a doença
O sarampo é uma infecção viral altamente contagiosa, com potencial para evoluir para quadros graves e fatais. Os sintomas iniciais incluem febre, tosse, coriza, perda de apetite e conjuntivite com vermelhidão, lacrimejamento e sensibilidade à luz. Posteriormente, surgem manchas vermelhas na pele, começando no rosto e se espalhando pelo corpo, acompanhadas de dor de garganta. Em casos mais graves, podem ocorrer descamação da pele, cegueira, pneumonia e encefalite (inflamação cerebral).
Vacinação
A imunização é a principal ferramenta de prevenção contra o sarampo e está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) como parte do calendário infantil. A primeira dose da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) é administrada aos 12 meses de idade, e a segunda aos 15 meses.
Indivíduos com até 59 anos que não tenham comprovante de vacinação ou esquema vacinal incompleto devem procurar atualizar suas carteiras. O governo realiza campanhas periódicas de vacinação.
Dados preliminares do Ministério da Saúde para 2025 indicam um "avanço expressivo" na cobertura da vacina tríplice viral em comparação com 2022. A cobertura da primeira dose subiu de 80,7% para 93,78%, e a dose de reforço de 57,6% para 78,9%, demonstrando uma recuperação significativa da imunização no país. A Sociedade Brasileira de Imunizações considera que uma cobertura mínima de 95% é essencial para evitar surtos.
Recomendações
A Opas recomenda:
- Intensificar a vigilância e a vacinação de rotina, assegurando respostas rápidas a casos suspeitos.
- Realizar busca ativa de casos em comunidades, instituições e laboratórios para detecção precoce.
- Promover atividades de vacinação complementares para erradicar lacunas de imunidade.
Ações do ministério
O Ministério da Saúde informou que tem orientado estados e municípios a fortalecerem a vigilância epidemiológica, a vacinação e as medidas preventivas, incluindo a investigação ágil de casos suspeitos e a ampliação das coberturas vacinais.
Para proteger a população, especialmente nas fronteiras com a Bolívia, o Brasil intensificou a vacinação em estados fronteiriços em 2025 e doou mais de 640 mil doses da vacina ao país vizinho. Ações de imunização também foram reforçadas em municípios fronteiriços com Argentina e Uruguai, além de cidades turísticas e de alto fluxo.

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