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Segunda-feira, 11 de Maio 2026
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Débora Maria da Silva, das Mães de Maio, clama por justiça 20 anos após os Crimes de Maio

Seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, foi assassinado pela PM de São Paulo em 2006, um dos mais de 500 mortos nos Crimes de Maio que permanecem impunes.

Redação
Por Redação
Débora Maria da Silva, das Mães de Maio, clama por justiça 20 anos após os Crimes de Maio
© Paulo Pinto/Agência Brasil
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Vinte anos após o assassinato brutal de seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, durante os eventos que ficaram conhecidos como Crimes de Maio de 2006, a ativista Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, continua sua incansável luta por justiça e responsabilização. O gari, de 29 anos, foi morto a tiros na Baixada Santista em 15 de maio de 2006, um dia após as celebrações do Dia das Mães, marcando o início de uma tragédia pessoal e coletiva que expôs a violência estatal em São Paulo.

O período entre 12 e 21 de maio de 2006 foi um dos mais sombrios da história de São Paulo, caracterizado por uma onda de violência sem precedentes. Ataques orquestrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) foram seguidos por uma brutal retaliação de agentes policiais e grupos de extermínio, resultando na morte de mais de 500 indivíduos.

Edson Rogério, como muitos outros, era um jovem negro da periferia, tornando-se mais uma vítima desses episódios chocantes, coletivamente denominados Crimes de Maio.

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Débora recorda que não era afeita a comemorar seu próprio aniversário, preferindo celebrar o Dia das Mães. Em 2006, coincidentemente, 10 de maio, data de seu aniversário, caiu numa quarta-feira, dia em que Edson Rogério realizou uma cirurgia no siso.

O domingo seguinte foi marcado por uma celebração familiar com bolo e churrasco, a última vez que Edson Rogério cantaria parabéns para sua mãe. “Ele me deu um beijo e foi embora. Depois eu só vi ele dentro do caixão”, relata Débora, com a voz embargada pela lembrança da despedida final.

O assassinato de Edson Rogério ocorreu na segunda-feira, um dia após a festa de aniversário, quando ele parou para abastecer sua motocicleta. Um testemunho crucial, revelado a Débora durante o velório, descreve o momento: um rapaz se aproximou para ajudar Edson, que havia ficado sem gasolina, mas encontrou-o sendo abordado por duas viaturas policiais no posto.

Segundo o relato, após a abordagem no posto, os policiais se afastaram, subindo o morro, onde aguardaram Edson. “Mataram o meu filho encostado num muro e ele caiu sobre umas pedras, umas pedras de contenção”, detalha a mãe, evidenciando a frieza da execução.

Naquela fatídica segunda-feira pós-Dia das Mães, Edson Rogério foi alvejado por cinco tiros, resultando em morte instantânea. “Ele tomou um tiro em cada pulmão, um no coração, dois nos glúteos”, descreve Débora, expressando a dor profunda e duradoura.

Ela acrescenta: “Esses cinco tiros que eles deram no meu filho eu senti todos. Todos os tiros eu senti. Mas do coração eu senti mais, sinto até hoje, ele dói. Foi o fatal.”

Duas décadas se passaram, e o aniversário de Débora, novamente, coincidiu com o Dia das Mães, uma data que para ela perdeu todo o sentido de celebração.

“Não tem mais o que comemorar. Isso o Estado levou de mim perversamente”, afirma Débora. “Eu não consigo comemorar o Dia das Mães. Eu não consigo comemorar mais o dia que eu fazia aniversário. Eu não perdi só o Rogério. Eu perdi minha família.”

A luta pela memória e justiça

Este ano, Débora revive intensamente a dor de duas décadas atrás, enquanto organiza um acervo de fotos do filho para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e concede entrevistas. “Estou muito deprimida porque este ano completam-se 20 anos e pode prescrever o crime do meu filho”, desabafa.

“É Dia das Mães, meu aniversário e a cabeça está irada e eu tentando segurar minha saúde mental para poder segurar esse barco”, revela a ativista, evidenciando o peso emocional da data.

Pouco tempo após a perda de Edson, Débora foi uma das fundadoras do movimento Mães de Maio, uma rede vital de apoio composta por mães, familiares e amigos de vítimas da violência estatal. A organização se tornou um pilar na busca por justiça, memória e no enfrentamento à brutalidade do Estado.

“Maio de 2006 é uma história que nós contamos como mães porque nossos filhos morreram como suspeitos”, enfatiza Débora. Ela destaca a amplitude do acolhimento do movimento, que “acolhemos até mãe de policial”, demonstrando que “a nossa dor não se mede”.

Apesar do tempo, a luta do movimento pela justiça persiste, ainda sem respostas concretas. Recentemente, as Mães de Maio, em parceria com a Conectas Direitos Humanos, protocolaram um apelo urgente junto à Organização das Nações Unidas (ONU), denunciando a contínua omissão do Estado brasileiro em esclarecer os Crimes de Maio.

“Nenhuma dessas execuções foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e tampouco as famílias das vítimas receberam reparação adequada”, afirmam as entidades no documento enviado à ONU, sublinhando a persistente impunidade.

Para Débora, a morte de Edson Rogério é um reflexo da violência estatal, manifestada tanto pela execução quanto pela omissão. “Não foram os faccionados que mataram nossos filhos. Foi o crime organizado, que é o terrorismo do Estado”, declara.

Ela argumenta que “foi uma retaliação, e nossos filhos pagaram por uma guerra que não era deles”. A ativista conclui que “quem nos mata, para além da morte dos nossos filhos, é a impunidade”.

Para Débora e tantas outras mães afetadas pela violência policial, a memória dessas mortes é crucial. Elas não podem ser esquecidas nem permanecer impunes, sob o risco de que tais tragédias continuem a se repetir.

“A gente não pode naturalizar essas mortes – e principalmente de morte cometida pela polícia”, desabafa Débora. Ela ressalta que “o massacre de maio é um massacre continuado, estamos vendo isso hoje em dia”.

O movimento busca reverter a narrativa de criminalização, afirmando que “nossos filhos morreram como suspeitos e nós mostramos que nossos filhos têm nome, sobrenome e residência fixa”.

A ativista observa a continuidade desses crimes com o mesmo modus operandi. “Eu tive que dar colo para várias mães do Brasil”, afirma, destacando o papel de conscientização.

Ela as encoraja “para que elas não tenham medo de dizer que a polícia é violenta e também para dizer que o filho dela importa mesmo depois de morto”.

Duas décadas após o massacre, as Mães de Maio persistem em sua jornada, almejando um país que valorize a memória, a justiça e a não-violência.

“Nós queremos continuar vivas para poder parir um novo Brasil ou uma nova sociedade, porque nós parimos seres humanos. Nós não parimos suspeito. O suspeito quem nos rotula é o crime organizado, que é esse Estado muito aparelhado. E isso vem desde o tempo da ditadura”, declara Débora, conectando a violência atual a um passado autoritário.

A trajetória de Débora e de outras mães que sofreram perdas nos Crimes de Maio será tema do programa “Caminhos da Reportagem”. O episódio, intitulado “Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas”, será transmitido nesta segunda-feira (11), às 23h, pela TV Brasil.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN

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