Gazeta do RN

Aguarde, carregando...

Segunda-feira, 20 de Abril 2026

Saúde

Polilaminina: esperança e os testes que ainda faltam

A primeira etapa dos ensaios clínicos pode ser finalizada ainda este ano, com a expectativa de concluir todas as fases de teste em aproximadamente dois anos e meio.

Redação
Por Redação
Polilaminina: esperança e os testes que ainda faltam
© Fernando Frazão/Agência Brasil
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

A investigação sobre a polilaminina, substância desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em colaboração com a empresa farmacêutica Cristália, tem gerado considerável atenção. Contudo, questões cruciais permanecem sem resposta definitiva para se comprovar a capacidade da substância em auxiliar indivíduos com lesões medulares a recuperar a mobilidade.

Embora os trabalhos, sob a liderança da bióloga Tatiana Sampaio Coelho, tenham começado há mais de 25 anos, a maior parte desse período foi dedicada a testes em laboratório, uma fase fundamental conhecida como pré-clínica.

Além da análise das moléculas de polilaminina, a equipe precisou, primeiramente, avaliar se a substância apresentava algum efeito em culturas de células e em animais antes de prosseguir para testes em seres humanos.

Publicidade

O que é a polilaminina?

A descoberta da substância ocorreu de forma acidental pela professora Tatiana Sampaio, enquanto ela buscava separar os componentes da laminina, uma proteína encontrada em diversas partes do corpo humano.

Ao experimentar um solvente, ela observou que, em vez de se fragmentar, as moléculas de laminina começaram a se agrupar, formando uma estrutura complexa: a polilaminina. Essa agregação ocorre naturalmente no organismo, mas nunca havia sido replicada em ambiente laboratorial.

A partir dessa observação, Tatiana dedicou-se a investigar os potenciais usos da rede de lamininas e identificou que, no sistema nervoso, essas proteínas servem como um suporte para o crescimento dos axônios. Os axônios são prolongamentos de neurônios, semelhantes a caudas, responsáveis pela condução de sinais elétricos e químicos.

Quando a medula espinhal sofre uma lesão, os axônios são interrompidos, o que impede a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo a partir do ponto da lesão. Essa interrupção é a causa da paralisia.

Em condições normais, as células do sistema nervoso possuem capacidade limitada de regeneração. Portanto, o objetivo dos testes é verificar se a polilaminina pode fornecer um novo arcabouço para que os axônios do paciente voltem a crescer e a se reconectar, restabelecendo a via de comunicação dos comandos cerebrais.

Projeto-piloto

Após obter resultados promissores em ratos, os pesquisadores conduziram um estudo-piloto entre 2016 e 2021. Na ocasião, a substância foi administrada em oito indivíduos que haviam sofrido lesão completa em diferentes segmentos da medula, em decorrência de quedas, acidentes automobilísticos ou ferimentos por arma de fogo.

Além de receberem a polilaminina, sete desses participantes passaram por cirurgia de descompressão espinhal, um procedimento padrão em casos de lesão medular. As intervenções foram realizadas até três dias após o incidente que causou a lesão.

Duas pessoas faleceram ainda no hospital devido à gravidade de seus quadros, e uma terceira veio a óbito pouco tempo depois em decorrência de complicações relacionadas ao ferimento.

No entanto, os cinco pacientes que se recuperaram, receberam a polilaminina e foram submetidos à cirurgia de descompressão apresentaram algum grau de recuperação motora, ou seja, conseguiram mover partes do corpo que estavam paralisadas pela lesão. Contudo, isso não implica que todos voltaram a andar.

A melhoria foi avaliada com base na progressão dos pacientes na escala AIS, que varia de A a E. Na escala, A representa o comprometimento mais severo e E, o funcionamento normal do corpo em termos de mobilidade e sensibilidade. Para essa classificação, a equipe médica avalia a resposta a diversos estímulos aplicados em pontos específicos do corpo.

Quatro pacientes do estudo-piloto evoluíram do nível A para o nível C, indicando que recuperaram sensibilidade e movimentos, embora de forma incompleta. Um indivíduo alcançou o nível D, após recuperar a sensibilidade e as funções motoras em todo o corpo, com capacidade muscular próxima do normal.

Este último paciente é Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após uma fratura na coluna cervical em 2018. Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, Bruno relatou que conseguiu mover o dedão do pé algumas semanas após a cirurgia de descompressão combinada com a aplicação da polilaminina.

“Foi um divisor de águas. Naquele momento, para mim, não importava se eu só conseguia mexer o dedão do pé e mais nada. Mas todos comemoraram, e, então, me explicaram que, quando um sinal do cérebro chega a uma extremidade, isso significa que o sinal está percorrendo o corpo inteiro.”

A partir daí, Bruno gradualmente recuperou outros movimentos e iniciou um longo e intensivo processo de fisioterapia e reabilitação na AACD, uma instituição paulista de referência nacional em tais tratamentos. Após anos de recuperação, ele hoje caminha normalmente, apresentando apenas dificuldades em alguns movimentos das mãos.

A experiência de Bruno e dos demais pacientes, contudo, não é suficiente para comprovar cientificamente a segurança e a eficácia da polilaminina. Um artigo pré-print publicado pela equipe de pesquisa com os resultados do estudo-piloto ressalta, por exemplo, que até 15% dos pacientes com lesão completa podem apresentar recuperação de movimentos espontaneamente.

Ademais, o diagnóstico de lesão completa e a avaliação pela escala AIS, realizados logo após a fratura, podem ser influenciados por fatores como inflamação e inchaço. Por vezes, quadros menos graves são identificados em pacientes que, inicialmente, foram classificados como casos de paralisia total.

Ainda assim, os resultados apresentados publicamente pela equipe de pesquisa em setembro do ano passado chamaram considerável atenção. Caso a eficácia da polilaminina seja confirmada, a ciência brasileira terá descoberto uma solução inovadora para um problema que afeta milhões de pessoas, com um impacto significativo em suas vidas e bem-estar. No entanto, um longo percurso ainda se estende até lá.

Fase 1, 2 e 3

O professor de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Eduardo Zimmer, explica que, tradicionalmente, os ensaios clínicos de um novo medicamento são divididos em três fases, cada uma com um objetivo específico.

“Na fase 1, contamos com um número reduzido de pacientes, geralmente saudáveis, pois o objetivo é determinar a segurança do composto e a tolerância humana ao tratamento. Paralelamente, avaliamos a farmacocinética, que é o estudo de como o medicamento se comporta no organismo: sua absorção, metabolismo e excreção”, detalha.

É nesta fase que se encontra o estudo com a polilaminina. De acordo com a líder da pesquisa, a professora Tatiana Sampaio Coelho, os testes estão programados para iniciar neste mês e devem ser concluídos até o final do ano.

No entanto, haverá uma distinção importante em relação ao padrão. Como a polilaminina é administrada por injeção diretamente na medula, o procedimento não será realizado em voluntários saudáveis, mas sim em pacientes com lesão medular aguda.

“Monitoraremos eventos adversos para verificar se são os esperados, realizaremos exames neurológicos para detectar qualquer deterioração e diversos exames de sangue para avaliar toxicidade hepática ou renal. Esses dados serão comparados com a evolução natural esperada para esses pacientes graves e com outros estudos”, complementa Tatiana.

Conforme aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a substância será administrada em cinco voluntários. Eles deverão ter entre 18 e 72 anos e apresentar lesões agudas completas na medula espinhal torácica, entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica realizada há menos de 72 horas da lesão. O procedimento ocorrerá no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

O estudo apresentará outra particularidade, segundo a pesquisadora. “O fato de serem pacientes com lesão medular significa que os resultados de indicação de eficácia já serão obtidos a partir da fase 1”. Ou seja, os pesquisadores também pretendem observar se esses pacientes apresentam melhora, o que diverge do protocolo usual.

De acordo com Eduardo Zimmer, que também chefia a Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento e é pesquisador apoiado pelo Instituto Serrapilheira e pelo programa Idor Ciência Pioneira, a eficácia de um medicamento em humanos geralmente é avaliada a partir da fase 2, quando o número de voluntários aumenta. É também nesse estágio que a equipe testa diferentes dosagens para identificar a formulação ideal.

Tatiana Sampaio adianta que duas dosagens distintas serão avaliadas no caso da polilaminina, caso o estudo avance para a fase 2. Os detalhes de uma eventual fase 3, a etapa final e crucial para confirmar a eficácia e a consistência dos resultados de um medicamento, ainda não foram definidos. A equipe estima concluir todas as fases de teste em cerca de dois anos e meio.

Desafios para os testes

O professor e pesquisador Eduardo Zimmer afirma que, geralmente, na fase 3, o número de voluntários é significativamente maior, e os testes são conduzidos em múltiplos centros de pesquisa.

Os participantes são aleatoriamente divididos em dois grupos. Apenas um grupo recebe a substância em teste, enquanto o outro serve como grupo de comparação, o chamado grupo controle, para observar a evolução sem o tratamento ativo.

O ideal é que, inicialmente, nem os pacientes nem os pesquisadores saibam a qual grupo cada participante pertence. O objetivo é garantir que o benefício observado seja atribuído ao medicamento testado e não a outros fatores.

“No caso de uma patologia como essa, o grupo controle serve para comparar a eficácia do novo medicamento em relação às outras terapias existentes. O paciente continua recebendo o melhor tratamento disponível, e o objetivo é verificar se o novo medicamento proporciona uma recuperação superior em comparação ao tratamento padrão já existente”, ele ressalta.

Contudo, os testes com a polilaminina podem requerer procedimentos adaptados. O ex-presidente da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), Jorge Venâncio, explica que, normalmente, os participantes de ensaios clínicos que integram os grupos de controle recebem acesso prioritário à nova tecnologia, caso sua eficácia seja comprovada, como forma de compensação.

“Neste caso, enfrentamos a seguinte dificuldade: o tratamento precisa ser iniciado em um prazo relativamente curto após o acidente que causou o traumatismo, mas os resultados terapêuticos tendem a demorar. Assim, quando o estudo for concluído, a equipe provavelmente terá dificuldades em administrar o medicamento àqueles que receberam o placebo”, complementa Venâncio.

Embora os ensaios clínicos sigam um percurso ideal, adaptações podem ser realizadas quando justificadas, segundo o ex-presidente do Conep. Isso ocorre, por exemplo, em estudos de novos tratamentos para doenças raras, que afetam um número muito reduzido de pessoas, tornando inviável o recrutamento do contingente ideal de voluntários. No entanto, Venâncio enfatiza a importância de todas as fases de pesquisa serem cumpridas.

“Não se pode administrar uma substância cuja segurança é desconhecida a centenas de participantes. Por isso, o teste inicial é feito em uma população pequena para avaliar se o risco é aceitável para um estudo mais amplo. Na fase dois, começa-se a investigar a dosagem adequada, e na fase três, o efeito real da substância é testado. Sem um grupo controle, corre-se o risco de chegar a uma conclusão oposta à realidade”, adverte o ex-presidente do Conep.

Ensaios clínicos serão acompanhados

A professora da UFRJ, Tatiana Sampaio, ressaltou que, independentemente da avaliação dos pesquisadores, a decisão sobre as próximas etapas dos estudos com a polilaminina caberá à Anvisa e a comitês de ética credenciados, órgãos responsáveis pela aprovação dos ensaios clínicos no Brasil.

A coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), Meiruze Freitas, acrescenta que, mesmo após a aprovação, as pesquisas continuam sob monitoramento. O comitê de ética verifica se as atividades não estão prejudicando os participantes, e a Anvisa assegura que as boas práticas clínicas estão sendo observadas.

“A polilaminina representa um fator de esperança, pois uma lesão medular acarreta diversas complicações, incluindo o óbito. Contudo, é fundamental manter rigor científico. Essas fases não existem por mera burocracia, mas para garantir a obtenção de dados validados, com avaliação imparcial, passível de revisão por pares [outros cientistas], e para comprovar a eficácia real da tecnologia. Isso impede que a população seja exposta a produtos não confiáveis.”

Meiruze também avalia que os órgãos reguladores serão cada vez mais desafiados pelas particularidades de pesquisas que propõem soluções inovadoras.

A coordenadora do Inaep complementa que esses órgãos precisam “estar estruturados e possuir capacidade técnica para receber e viabilizar inovações de forma responsável, acompanhando qualidade, eficácia e segurança”, assim como os pesquisadores necessitam de suporte para conduzir seus trabalhos conforme as exigências.

“Teoricamente, mesmo com resultados parciais nas fases 1 e 2, já é possível ter indicativos de eficácia. E, para produtos como a polilaminina, que, em tese, não possuem alternativa terapêutica além da cirurgia, o desenvolvimento poderia ser acelerado, permitindo, talvez, um registro no Brasil após a conclusão da fase 2, enquanto a fase 3 ainda estivesse em andamento. Isso ocorre em casos de doenças de alta mortalidade ou raras, onde o desenvolvimento da fase 3 se torna inviável”, explica Meiruze.

Atualmente, a principal regulamentação sobre o tema é a Lei 14.874, sancionada em 2024, que introduziu alterações visando agilizar o desenvolvimento de novas tecnologias no país. Uma das principais mudanças foi a redução dos prazos para análise de novos estudos. Os comitês de ética devem responder em até 30 dias, e a Anvisa, em 90 dias.

Valorização da ciência

Para a criadora da polilaminina, a professora da UFRJ Tatiana Sampaio, a diminuição dos obstáculos também depende de uma mudança cultural.

“Precisaríamos ter a compreensão de que investir na ciência pública é uma escolha de um país que almeja o desenvolvimento, um país que deseja possuir tecnologias próprias e não ser mais dependente.”

“Sou muito obstinada, mas, independentemente das minhas qualidades, tudo só foi possível devido às características da minha pesquisa. Eu estava estudando uma condição sem terapia existente e com um forte apelo emocional. Além disso, é uma área que desperta grande interesse na pesquisa, o que me proporcionou ferramentas que facilitam o andamento do trabalho. Combinando esses fatores, foi possível. Em outras circunstâncias, não teria sido”, conclui Tatiana.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
Comentários:

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR