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Terça-feira, 10 de Março 2026

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Estudo revela que brasileiros têm conhecimento limitado sobre o Holocausto

A pesquisa indicou que a escola é a principal fonte de informação (30,9%), seguida por filmes e livros (18,6%) e, em menor grau, pela internet e redes sociais (12,5%).

Redação
Por Redação
Estudo revela que brasileiros têm conhecimento limitado sobre o Holocausto
© Rovena Rosa/Agência Brasil
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Aos 83 anos, Hannah Charlier é uma das vozes que testemunham o Holocausto. Nascida em 1944, na Bélgica, ela veio ao mundo em uma prisão, após sua mãe, uma judia grávida e membro da resistência contra o nazismo alemão, ser capturada pelas forças alemãs.

Ainda um bebê, Hannah viu seus pais serem levados para o fuzilamento. Sua sobrevivência, no entanto, foi um milagre: antes de ser executada, sua mãe a envolveu em um pequeno pacote e a amarrou às costas. Ao cair sob o fogo inimigo, o corpo da mãe protegeu a filha. “E, em cima dela, caíram outras pessoas”, relembrou Hannah.

Um oficial alemão presente na execução percebeu o esforço da mãe de Hannah em resguardar algo. Intrigado com a importância dada ao objeto, ele dispersou os demais soldados e retornou ao local. Lá, encontrou o “embrulho” sob o corpo da mulher, descobrindo que se tratava de uma criança.

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Secretamente, o oficial escondeu a bebê em uma mochila e a entregou a um grupo da resistência judaica. “Os resistentes sabiam que essa criança só podia ser filha da minha mãe, que era uma resistente que foi pega grávida. E eu acabei sendo entregue a uma senhora que era responsável pelo Serviço Social da Infância, uma mulher que acabou salvando mais de 5 mil crianças judias”, relatou Hannah.

Após um período em um orfanato, Hannah foi adotada aos 9 anos por um casal que se mudou para o Brasil, país onde reside até hoje.

A trajetória de Hannah serve como um pungente exemplo do Holocausto, o genocídio de milhões de judeus na Europa. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos o descreve como “a perseguição sistemática e o assassinato de 6 milhões de judeus europeus pelo regime nazista alemão, seus aliados e colaboradores”.

O Holocausto teve seu início em janeiro de 1933, com a ascensão de Adolf Hitler e do Partido Nazista ao poder na Alemanha, e encerrou-se em maio de 1945, com a derrota da Alemanha nazista pelas potências aliadas ao fim da Segunda Guerra Mundial.

“Inserido na Segunda Guerra Mundial, o Holocausto é a maior tragédia que a humanidade viveu no século 20”, afirmou Sergio Napchan, diretor executivo da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

“Os números exatos do Holocausto podem não ser precisos, mas o fato é que 6 milhões de pessoas perderam a vida. Um terço dos judeus europeus foi exterminado simplesmente por sua origem”, destacou Napchan em entrevista à Agência Brasil.

Em antecipação ao Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, celebrado em 27 de janeiro, uma pesquisa foi divulgada nesta quinta-feira (22) no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto de São Paulo. O estudo revelou que, embora a maioria dos brasileiros (59,3%) tenha conhecimento do Holocausto, apenas cerca de metade (53,2%) consegue defini-lo com precisão.

“A principal conclusão que extraímos desta pesquisa é que uma parcela significativa da população brasileira não compreende plenamente o Holocausto. O termo pode ser familiar, mas os detalhes são desconhecidos. Isso é crucial atualmente, pois o discurso de ódio prolifera nas redes sociais, e os jovens estão expostos a conteúdos que promovem o nazismo e banalizam o Holocausto”, enfatizou Hana Nusbaum, gerente de Educação da Stand WithUs Brasil.

O levantamento demonstrou que o entendimento sobre o Holocausto é ainda mais precário quando se abordam aspectos específicos, como o reconhecimento de Auschwitz-Birkenau como um campo de concentração e extermínio do povo judeu, dado correto por apenas 38% dos participantes.

“Embora os judeus tenham sido as principais vítimas do Holocausto, ele não se restringiu a eles. Populações LGBT, prisioneiros políticos e Testemunhas de Jeová também foram condenados. Essa história, portanto, transcende a narrativa judaica. Os judeus foram os mais vitimados, mas a tragédia abrange muito mais, e por isso nos esforçamos para relembrar essa data, a fim de que tal horror nunca mais se repita”, salientou Sergio Napchan.

Escolaridade

A pesquisa revelou ainda que a escola se destaca como a principal fonte de informação sobre o tema (30,9%), seguida por filmes e livros (18,6%) e, em terceiro lugar, pela internet e redes sociais (12,5%).

Museus, memoriais e instituições especializadas foram mencionados por uma pequena parcela dos entrevistados, apenas 1,7%, indicando um acesso limitado a esses espaços formais de preservação da memória.

Para Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, esses achados sublinham a relevância da educação e da cultura para a compreensão desse capítulo sombrio da história.

“O museu desempenha um papel crucial na construção dessa memória. Acreditamos firmemente na responsabilidade social das instituições museológicas e em uma museologia que serve à sociedade, engajando-se em pautas públicas e opondo-se aos discursos de ódio, à violência, ao racismo, à homofobia e à violência contra a mulher”, defendeu Reiss.

Hana Nusbaum reforça que a educação é um pilar essencial para combater o ódio e a violência, fatores que podem culminar em tragédias como o Holocausto.

“Quando os estudantes brasileiros compreendem o Holocausto, sua formação cidadã é fortalecida. O sobrevivente Gabriel Waldman, ao abordar o tema, afirma estar em sala de aula ‘para vacinar os alunos contra o ódio’. É essa a abordagem que precisamos fomentar no ensino do Holocausto nas escolas do Brasil”, destacou Nusbaum.

Sergio Napchan igualmente enfatiza a importância da educação no combate a genocídios globalmente. “Se educarmos, falarmos, marcarmos e conferirmos significado ao que representou o Holocausto e ao que não pode mais ocorrer, esperamos que possamos trabalhar com a premissa de que nunca mais acontecerá. Não há garantias, o mundo está em turbulência. Mas, com essa ação, estaremos cumprindo a nossa parte”, concluiu.

Pesquisa

Intitulada “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil”, a pesquisa foi conduzida pelo Grupo Ispo, por solicitação da Conib, do Memorial do Holocausto de São Paulo, do Museu do Holocausto de Curitiba e da Stand WithUs Brasil.

A coleta de dados ocorreu entre abril e outubro do ano passado, abrangendo 7.762 indivíduos em 11 regiões metropolitanas do país, excluindo a Região Norte.

Os responsáveis pelo estudo informaram que a pesquisa será ampliada para outras localidades, incluindo cidades da Região Norte do Brasil.

Atos

Diversos eventos estão programados para os próximos dias em celebração ao Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto. Neste domingo (25), por exemplo, a Congregação Israelita Paulista, na capital paulista, sediará um ato em homenagem às vítimas, com início às 18h.

Na segunda-feira, a Casa do Povo, também em São Paulo, receberá a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, para um encontro com representantes da comunidade judaica e do bairro Bom Retiro. O evento está previsto para começar às 18h20.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
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