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Terça-feira, 10 de Março 2026

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A violência vicária em foco após tragédia em Itumbiara

Estela Bezerra, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, explica como agressores utilizam pessoas próximas à vítima para causar sofrimento e punição.

Redação
Por Redação
A violência vicária em foco após tragédia em Itumbiara
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Dentre as múltiplas formas de violência contra a mulher que afligem o Brasil diariamente, um episódio chocante em Goiás chamou atenção para uma modalidade menos compreendida ou debatida: a violência vicária. Ela se manifesta quando um agressor, geralmente um homem, causa dano físico ou fatal a indivíduos próximos à mulher, visando infligir-lhe sofrimento psicológico ou punição.

Recentemente, em uma quarta-feira (11), Thales Machado, secretário de Governo da prefeitura de Itumbiara (GO), cometeu um ato hediondo ao disparar contra seus dois filhos em sua residência, antes de tirar a própria vida. Um dos garotos, de 12 anos, faleceu no local, enquanto o irmão mais novo, de 8 anos, internado em estado crítico, veio a óbito poucas horas depois.

Em declaração à Agência Brasil, Estela Bezerra, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, elucidou a violência vicária como um cenário onde o perpetrador ataca e provoca sofrimento, inclusive fatal, a indivíduos com laços afetivos com a vítima. Filhos são os alvos mais comuns, mas mães e até animais de estimação também podem ser visados.

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“Frequentemente, crianças e adolescentes, filhos da mulher, são instrumentalizados devido ao forte vínculo afetivo que representam. O objetivo é penalizar a mãe, tal como ocorreu em Itumbiara, onde o pai assassinou os dois filhos para atingi-la. É como se a mulher recebesse a punição máxima imaginável: a execução de um filho”, detalhou a secretária.

Estela ressaltou que, tanto no incidente de Itumbiara quanto na maioria dos casos similares, o agressor frequentemente elabora uma versão dos fatos que o posiciona como vítima, atribuindo à companheira a culpa pelo desfecho trágico. Antes de cometer suicídio, Thales Machado divulgou nas redes sociais uma carta mencionando uma alegada infidelidade da esposa e problemas conjugais.

“Ele assassina os filhos e, antes de falecer, fabrica narrativas para culpar a esposa. Ele a responsabiliza pelas mortes que ele próprio causou, alegando rejeição e um relacionamento amoroso que não mais atendia às expectativas dela”, explicou a secretária.

“A gravidade reside na manipulação. O agressor, que também tirou a própria vida, forjou uma história para incriminar a mulher, a verdadeira vítima. Ela não só perdeu os filhos assassinados, como teve sua imagem e trajetória expostas, e a responsabilidade pela tragédia recai sobre ela, impulsionada por narrativas sociais e pelo machismo”, afirmou. “Essa violência visa punir a mulher e atribuir-lhe a culpa por um crime que é escolha exclusiva de quem o comete. Quem mata, escolhe matar. A mulher não é responsável”, concluiu.

Conforme Estela Bezerra, a violência vicária é alarmantemente frequente no Brasil, apesar de ser pouco discutida.

“Esta forma de violência é intrínseca ao cotidiano, variando desde manifestações sutis até atos extremos, como o assassinato dos próprios filhos pelo agressor”, pontuou.

A secretária mencionou outro episódio recente de violência vicária no país, envolvendo um funcionário da Controladoria-Geral da União (CGU) que agrediu o filho e a ex-parceira.

“No vídeo em que um servidor da CGU agride uma criança e a mulher, ele inicialmente investe contra o menor. A mulher tenta defendê-lo e é também agredida. Ele golpeia a criança e a mulher. Assim que a mulher consegue se desvencilhar, ele volta a atacar a criança. Portanto, agredir filhos, mães ou maltratar animais domésticos é uma prática comum em contextos de violência doméstica”, exemplificou.

“Uma cultura machista profundamente enraizada persiste tanto no Brasil quanto globalmente, gerando uma acentuada assimetria de gênero. Essa disparidade é visível em diversos setores, como na representação política e na economia, onde mulheres, muitas vezes mais qualificadas, recebem salários inferiores aos homens. A violência surge como a expressão mais brutal dessa assimetria, servindo como ferramenta para manter a mulher em uma posição de subordinação e temor, cerceando sua liberdade”, complementou.

Sociedade civil destaca a gravidade da violência vicária

Ao analisar o ocorrido em Itumbiara, o Instituto Maria da Penha, uma ONG dedicada ao combate à violência doméstica e familiar, reiterou que a violência vicária não é um fenômeno isolado. “Trata-se de uma manifestação de violência de gênero que vitima mulheres através de crianças e adolescentes, quando estes são empregados como meios de controle, punição ou chantagem”, declarou a entidade.

“Não se trata de um mero conflito familiar, mas de uma violência explícita e uma grave violação dos direitos humanos. Por um longo período, essa conduta foi normalizada, ignorada ou categorizada como uma questão particular. O desfecho é o padecimento silencioso das mulheres e repercussões severas no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes”, enfatizou o Instituto.

Para o Instituto Maria da Penha, aprofundar a discussão sobre o tema é crucial. “O Brasil, por meio de uma resolução conjunta do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, reconheceu formalmente a violência vicária como uma forma de violência de gênero, instituindo diretrizes para a atuação do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, o que sublinha a importância da prevenção, proteção e de uma resposta coordenada entre instituições”.

“Identificar a violência é o ponto de partida para combatê-la. Informações precisas também constituem uma ferramenta de proteção. O Instituto Maria da Penha trabalha para fortalecer políticas públicas, aprimorar o debate e garantir que nenhuma manifestação de violência permaneça invisível. É fundamental que a informação circule para salvaguardar laços familiares, a infância e os direitos”, concluiu a organização.

A entidade lista as principais manifestações da violência vicária:

- Ameaças direcionadas aos filhos;

- Impedimento forçado da convivência familiar;

- Manipulação psicológica;

- Acusações infundadas;

- Sequestro ou retenção ilícita de menores.

A posição da Defensoria Pública de Goiás sobre a violência vicária

Em manifestação sobre o incidente em Itumbiara, a Defensoria Pública Estadual de Goiás (DPE-GO) emitiu um comunicado enfatizando que atos de abuso, violência e feminicídio são delitos, e que a ação de prejudicar os filhos para atingir a mãe é nomeada como violência vicária. “A mulher não é culpada. Ponto final”, declarou o órgão.

“Em novembro de 2024, a DPE-GO lançou a campanha ‘Ela Não tem Culpa - 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher’, com o intuito de provocar uma reflexão sobre a persistente culpabilização e o julgamento das mulheres, mesmo em situações de vitimização”, salientou a Defensoria.

“A DPE-GO reitera que a responsabilidade pela violência recai exclusivamente sobre quem a pratica, independentemente do comportamento, vestimenta ou tom de voz da vítima. Além disso, expor uma mulher vítima de violência pode constituir crime. A reflexão sobre a culpabilização feminina é o ponto de partida para desmantelar as desigualdades de gênero que alimentam os ciclos de violência”, concluiu a nota.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Gazeta do RN
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